(RESUMO) CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

INTRODUÇÃO GERAL

A pesquisa nasce da interrogação sobre as operações dos usuários, supostamente entregues à passividade e à disciplina.De um lado, a nálise mostra antes que a relação (sempre social) determina seus termos, e não o inverso. De outro lado, a questão tratada se refere a modos de operação ou esquemas de ação e não diretamente ao sujeito que é o seu autor ou seu veículo.

Este trabalho tem por objetivo explicitar as combinatórias de operações que compõem também (sem ser exclusivamente) uma ‘’cultura’’ e exumar os modelos de ação característicos dos usuários.

A interrogação sobre as práticas cotidianas foi a princípio precisada negativamente pela necessidade de não localizar a diferença cultural nos grupos que portavam a bandeira da “contracultura”. Muitos trabalhos dedicam-se a estudar seja as representações seja os comportamentos de uma sociedade.

A presença e a circulação de uma representação não indicam de modo algum o que ela é para seus usuários. É ainda necessário analisar a sua manipulação pelos praticantes que não a fabricam. Só então é que se pode apreciar a diferença ou a semelhança entre a produção da imagem e a produção secundária que se esconde nos processos de sua utilização.

Essas “maneiras de fazer” constituem as mil práticas pelas quais usuários se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas da produção sócio-cultural. A “cultura popular” se apresenta diferentemente, assim como toda uma literatura chamada “popular”: ela se formula essencialmente em “artes de fazer” isto ou aquilo, isto é, em consumos combinatórios e utilitários. De um lado, trabalhos sociológicos, antropológicos, e mesmo históricos elaboram uma teoria dessas práticas, misto de ritos e bricolagens, manipulações de espaços, operadores de redes. De outro, destacam os processos de interações cotidianas relativas a estruturas de expectativa, de negociação e improvisação próprias da língua ordinária.

CAMINHADAS PELA CIDADE

Neste palco de concreto, de aço e vidro, que uma água fria corta entre dois oceanos (o atlântico e o americano), os caracteres mais altos do globo compõem uma gigantesca retórica de excessos no gasto e na produção. A vontade de ver a cidade precedeu os meios de satisfazê-la.

A mesma pulsão escópica freqüenta os usuários das produções arquitetônicas materializando hoje a utopia que ontem era apenas pintada. Tudo se passa como se uma espécie de cegueira caracterizasse as práticas organizadoras da cidade habitada. Com relação às representações, ela permanece cotidianamente, indefinidamente, outra.

Escapando às totalizações imaginárias do olhar, existe uma estranheza do cotidiano que não vem à superfície. Neste conjunto, práticas estranhas ao espaço “geométrico” ou “geográfico”. Essas práticas do espaço remetem a uma forma específica de “operações”, a “uma outra espacialidade” e a uma mobilidade opaca e cega da cidade habitada.

1 DO CONCEITO DE CIDADE ÀS PRÁTICAS URBANAS

Planejar a cidade é ao mesmo tempo pensar a própria pluralidade do real e dar efetividade a este pensamento do plural: é saber e poder articular. A “cidade” instaurada pelo discurso utópico e urbanístico é definida pela possibilidade de uma tríplice operação: 1. A produção de um espaço próprio; 2. Estabelecer um não-tempo ou um sistema sincrônico; 3. Enfim, a criação de um sujeito universal e anônimo que é a própria cidade.

A cidade se torna o tema dominante dos legendários políticos, mas não é mais um campo de operações programadas e controladas. Talvez as cidades estejam deteriorando ao mesmo tempo que os procedimentos que as organizaram.

Ao invés de permanecer no terreno de um discurso que mantém o seu privilégio invertendo seu conteúdo, pode-se enveredar por outro caminho. Esse caminho poderia inscrever-se como uma seqüência, mas também como a recíproca da análise que Michel Foucault fez das estruturas do poder. Ele deslocou para os dispositivos e os procedimentos técnicos “instrumentalidades menores” capazes de transformar uma multiplicidade humana em sociedade “disciplinar” e de gerir, diferenciar, classificar, hierarquizar todos os desvios concernentes à aprendizagem, saúde, justiça, forças armadas ou trabalho.

 

2 A FALA DOS PASSOS PERDIDOS

O traço vem substituir a prática. Manifesta a propriedade que o sistema geográfico tem de poder metamorfosear o agir em legibilidade, mas aí ela faz esquecer uma maneira de estar no mundo. O ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação está para a língua ou para os enunciados proferidos. O ato de caminhar parece, portanto encontrar uma primeira definição como espaço de enunciação. Se é verdade que existe uma ordem espacial que organiza um conjunto de possibilidades e proibições, o caminhante atualiza algumas delas. Da mesma forma, o caminhante transforma em outra coisa cada significante espacial.

As caminhadas dos pedestres apresentam uma série de percursos variáveis assimiláveis a “torneios” ou “figuras de estilo”. O uso define o fenômeno social pelo qual um sistema de comunicação se manifesta de fato: remete a uma norma. A cidade e suas especificidades.É o que se faz com aquilo que se consome.

3 MÍTICAS: AQUILO QUE “FAZ ANDAR”

As figuras desses movimentos caracterizam ao mesmo tempo uma “simbólica do inconsciente” e “certos processos típicos da subjetividade manifestada no discurso”. Caminhar é ter falta de lugar. É o processo indefinido de estar ausente e à procura de um próprio. A circulação física tem a função itinerante das “superstições” de ontem ou de hoje.

Os lugares históricos são fragmentários e isolados em si, dos passados roubados à legibilidade por outro, enfim, simbolizações enquistadas na dor ou no prazer do corpo.

Essa relação de uma pessoa consigo mesma comanda as alterações internas do lugar ou os desdobramentos caminheiros das histórias empilhadas num lugar. A tática se desenvolve onde não há poder.

About these ads

4 Respostas para “(RESUMO) CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

  1. Apesar de este livro ser bastante complexo, o resumo aqui disponivel deixa uma noção resumida, mas que pode ajudar demasiadamente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s